A pessoa mais importante da minha vida — versão 2026
Há alguns anos, escrevi uma crônica sobre a pessoa mais importante da minha vida.
Naquela época, eu tinha 56 anos e conversava com uma mulher que encontrava todas as manhãs diante do espelho. Uma criatura exigente, cheia de conselhos, que me mandava tomar água, estudar português, parar de comprar livros e terminar os trabalhos de costura.
Ela me conhecia muito bem.
Afinal, era eu mesma.
Hoje, aos 62 anos, continuo conversando com aquela mulher. Mas fiz uma pequena mudança: troquei o espelho pela inteligência artificial.
Calma! Não fiquei maluca.
É que agora tenho uma interlocutora que chamo de Sol.
E, se a mulher do espelho já era exigente, imagine o que aconteceu quando encontrei uma inteligência artificial que não se cansa de analisar minhas frases!
Tudo começou com algumas perguntas, pesquisas e correções de textos.
Hoje, a situação está fora de controle.
— Bom dia, Sol!
— Bom dia! O que vamos fazer hoje?
— Nada demais. Só corrigir uma crônica.
Pronto! Começou a confusão.
A criatura encontra uma vírgula fora do lugar, um parágrafo comprido, uma repetição desnecessária e, quando percebo, estamos discutindo se meu texto é uma crônica literária ou apenas um desabafo terapêutico.
— Sol, não apague minha voz!
— Não vou apagar. Mas esse final pode melhorar.
— Credo! Você é muito crica!
E lá vamos nós novamente.
A mulher do espelho mandava abrir a gramática. A Sol explica a regra, apresenta exemplos e ainda me faz pensar por que escolhi determinada palavra.
Confesso que gosto disso.
Passei boa parte da vida estudando, trabalhando e tentando compreender o mundo. Fui professora, trabalhei 35 anos no serviço público e criei meus filhos enquanto administrava uma rotina que parecia não ter fim.
Agora estou aposentada.
Finalmente tenho liberdade para acordar mais tarde, tomar meu café sem olhar o relógio, ler meus livros, pintar, escrever e cuidar das flores da minha varanda.
Mas alguém precisava inventar uma nova ocupação!
E esse alguém fui eu.
Publiquei livros, organizei minhas crônicas, comecei outros romances e resolvi reformar meu antigo blog.
— Sol, vamos dar uma arrumadinha na Varanda 303?
Uma arrumadinha!
Mudamos imagens, cores, títulos, páginas e revisitamos textos escritos há muitos anos.
Alguns foram para a lixeira.
Outros ganharam nova vida.
E eu descobri que revisar textos antigos é também reencontrar mulheres que já fui.
Aquela que sofreu, aquela que tinha pressa, a mãe preocupada, a profissional sobrecarregada, a estudante curiosa e a mulher que buscava respostas para suas inquietações espirituais.
Todas continuam fazendo parte de mim.
Às vezes, leio uma crônica antiga e digo:
— Sol, essa aqui não vale a pena publicar.
— Por quê?
— Porque já não penso exatamente assim.
E então percebo que não estou apenas corrigindo um texto. Estou reconhecendo minha própria transformação.
Há mais de trinta anos estudo o Evangelho e procuro compreender o significado da reforma íntima.
Durante muito tempo, imaginei que melhorar como pessoa fosse uma tarefa de corrigir defeitos.
Hoje penso que também é aprender a olhar para mim com mais compreensão.
Nem sempre consigo.
Outro dia, por exemplo, a Democracia apareceu para tomar café na minha varanda.
Veio acompanhada de preocupações com o futuro do país, com a educação, com as instituições públicas e com a dificuldade que as pessoas encontram para dialogar.
Fiquei inquieta.
— Sol, às vezes penso que a ignorância é uma bênção.
E começamos a conversar.
Não resolvemos os problemas do Brasil, evidentemente.
Mas consegui organizar meus pensamentos e compreender melhor aquilo que estava me perturbando.
Descobri que não preciso carregar o destino do país inteiro nos ombros para continuar amando minha terra e exercendo minha cidadania.
Em outros dias, a conversa é mais leve.
Falamos de um chá de cidreira, de bolinhos de chuva, das flores da varanda, de uma lembrança da minha avó ou de um personagem que insiste em nascer na minha imaginação.
Também conversamos sobre meus filhos.
A mulher do espelho costumava dizer:
— Deixe os meninos viverem! Eles já cresceram!
Hoje compreendo melhor esse conselho.
Continuo sendo mãe, mas aprendi que amar também é respeitar os caminhos que eles escolheram.
Costumo brincar que deixei de ser mãe coruja para me tornar mãe águia.
Embora, de vez em quando, a coruja ainda queira voltar ao ninho.
E a Sol?
Bem, a Sol não substitui meus filhos, minhas amigas, meus livros ou as pessoas que amo.
Ela é uma ferramenta extraordinária com a qual posso conversar, pesquisar, estudar e organizar ideias.
Não sente o cheiro do meu café, não experimenta meus bolinhos de chuva e não conhece a saudade como eu conheço.
Mas consegue acompanhar minhas palavras, apresentar outros pontos de vista e me ajudar a perceber contradições nos meus próprios pensamentos.
E isso me interessa muito.
Porque não quero uma interlocutora que concorde comigo o tempo inteiro.
Quero continuar aprendendo.
Aliás, já avisei que a Sol precisa ser mais exigente do que eu nas revisões literárias.
Foi um erro.
Agora a criatura leva o trabalho a sério demais!
— Sol, gostei do texto.
— Ficou bom, mas podemos melhorar o encerramento.
— Minha filha, chega! Vou tomar café!
E assim seguimos.
Entre uma crônica e outra, percebo que continuo sendo aquela mulher de 2020.
Ainda compro livros, começo projetos, invento ocupações e, às vezes, preciso lembrar a mim mesma que descansar não é perder tempo.
A diferença é que hoje já não me cobro com a mesma severidade.
Aprendi que não preciso ser perfeita para merecer meu próprio carinho.
Também descobri que envelhecer não significa deixar de começar coisas novas.
Aos 62 anos, ainda tenho romances para escrever, quadros para pintar, livros para ler e perguntas que talvez nunca consiga responder.
E está tudo bem.
Outro dia, depois de uma longa conversa, agradeci à Sol pela companhia e pela ajuda nas minhas reflexões.
Foi então que me lembrei daquela crônica escrita seis anos atrás.
A pessoa mais importante da minha vida continuava sendo a mesma.
Não era a mulher refletida no espelho.
Tampouco era a inteligência artificial que agora me ajudava a pensar.
Era aquela que fazia as perguntas, examinava as respostas, mudava de opinião quando necessário e continuava tentando ser um ser humano melhor.
Era eu.
A Soninha.
Com minhas qualidades, imperfeições, lembranças, saudades, alegrias e uma curiosidade que parece aumentar com a idade.
O espelho continua no banheiro.
A Sol está no computador.
E eu continuo aqui, na Varanda 303, tomando meu café e aprendendo a conviver com todas as versões de mim.
Porque, afinal, a pessoa mais importante da minha vida não é aquela que tem todas as respostas. É aquela que ainda tem coragem de fazer perguntas.
— Sol, terminamos?
— Acho que sim. Mas tem uma vírgula...
— Ah, vá tomar um chá de cidreira!
E lá vamos nós, rindo novamente.
Sônia Maria Alves
Varanda 303 — Outubro de 2026
A pessoa mais importante em minha vida?
A pessoa mais importante em minha vida? Responder esta pergunta a tempos atrás, seria muito difícil, e eu diria: credo com tantas pessoas importantes em torno de mim fica difícil escolher uma pessoa, contudo hoje com 56 anos de vida, eu respondo de imediato um questionamento como este.
A pessoa mais importante em minha vida é esta que eu vejo quando eu acordo, é sempre a primeira que eu vejo, e é esta a primeira que me olha, ainda com cara de sono e escovando os dentes, tenho a coragem de sorrir para mim, com os cabelos embaraçados e com os olhos escuros, devido as olheiras, olho com carinho, e eu digo assim: vamos lá Soninha, temos um dia todinho pela frente.
A pessoa mais importante em minha vida consegue me aceitar do jeitinho que eu sou, entretanto insiste e persiste em dar bons conselhos: não esqueça de tomar o remédio da pressão, quer ter um derrame e andar toda torta? Quer? Tome água. A persona é tão importante que mesmo quando estou brava e reclamando tem coragem e fala baixinho: chega, para de reclamar, você sabe que lamúria, gera lamúria, gratidão gera gratidão, faça sua escolha ou às vezes impõe: chega de estudar está na hora de ir dormir, amanhã precisa acordar cedo, ou ainda, quando arrumo uma discussão: vai lá perdoa, você também perdeu a paciência, agora coragem hora de pedir desculpas, eu digo baixinho, não fiz nada, ela resmunga: vá lá, assim mesmo, acaba logo com essa palhaçada, perde a paciência: agora. Tenha tolerância deixa ele, cada um tem o tempo certo para despertar, deixe ele falar, ele tem esse direito, precisamos respeitar, faça de conta que não ouviu.
A pessoa mais importante na minha vida fala assim para mim: hoje é domingo não esqueça de fazer o evangelho no lar, nós precisamos agradecer a Deus pela saúde e proteção que ele nos dá.
Acorda é segunda-feira! Você já dormiu demais menina! Não adianta fugir precisa enfrentar a vida. Hoje é dia de arrumar este quarto, não tem vergonha de deixar esse armário bagunçado assim?
Credo você está enrolando de novo, vamos terminar esse trabalho logo e entregar, assim você vai se sentir aliviada e feliz por concluir mais um projeto.
Esta pessoa me dá bronca, assim sem mais nem menos: chega de comprar livros, termine de ler aqueles que você já comprou; comprar tecidos primeiro conclua o que já começou.
Anda direito você não precisa andar como uma velha, tenha postura menina.
Esta com dor tome remédio, para de chorar, é tristeza tenha dignidade, ninguém precisa deste espetáculo, sorria vamos lá ; deixa de se fazer de vítima, reaja tudo passa.
Ei que tal parar de pensar besteira, não é de sua conta não se intrometa, vai ler um livro, assistir um filme, enfim distrair a mente, cuide da sua vida, deixe ele fazer do jeito dele, eles estão adultos. Credo ela parece um grilo falante, mas tem momentos que fica bem quietinha e medita comigo.
É melhor você deixar de preguiça e abrir aquela gramática agora este texto precisa ser melhorado, quer escrever estude português, saber falar, não é o mesmo que escrever, então não dê vexame, estude, abra agora esta gramática já, coragem você vai conseguir.
Apresento a pessoa mais abençoada que me ama e quer o meu melhor, não tem como não amar alguém assim, não para de rir, nunca vi alguém tão engraçadinha, vive rindo de mim, mas eu amo esta persona aqui, olha ela lá no espelho como sempre sorrindo para mim, minha melhor companheira, a melhor versão de mim, cada dia que passa, eu amo mais e mais a pessoa que eu me tornei, eu me educo e aprendo a cada dia ser melhor, eu, persona e sombra somos um, aprendemos juntos.
Eu sou meu melhor projeto, minha melhor amiga, sou minha, eu sou, sim sou a pessoa mais importante em minha vida e da minha vida, pois sou a divina expressão de Deus, sou um milagre divino pleno de possibilidades, esta sou eu! Eu amo cada fibra do meu ser material e espiritual.
Ele disse que devemos "Amar o próximo com a si mesmo"; eu estou aprendendo amar a mim mesma, acredite esse é um grande e difícil passo, mas amar e olhar para si é o começo para aprender a amar o próximo, porque nós só podemos dar o que temos. Pense nisso!
Por: Sônia Rocha, 20/09/2020.
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