A importância do contexto

 





A importância do contexto

Da varanda do 303, observo um grande lagarto correndo pelo asfalto, perseguido por uma andorinha que levanta voo, sobe e retorna com toda a velocidade para bicar a cabeça dele. E repete isso diversas vezes.

Acho interessante o espetáculo, uma vez que ele não reage e continua a correr, buscando uma moita ao lado do meio-fio para se proteger. A andorinha, irada e corajosa, continua a investir contra ele, atacando-lhe a cabeça e, às vezes, o rabo.

Eu nunca pensei que uma andorinha pudesse ser tão briguenta. Ela não desiste e continua a perseguir o pobre, que, com suas pequenas patinhas, corre desesperadamente em busca de refúgio, até que consegue passar por uma fresta no muro que dá para uma chácara.

A andorinha, por sua vez, voa bem alto, pousa na copa de uma grande árvore e fica observando atentamente, tentando encontrar o lagarto que já se escondeu no matagal.

As divergências e os conflitos existem em todos os reinos daqueles que buscam a sobrevivência. Contudo, passei a divagar sobre o porquê de a andorinha estar tão irada com o lagarto.

Algumas suposições surgem em minha mente: será que ele comeu seus ovos? Atacou seus filhotes?

Eu não conheço muito de biologia e desconheço a cadeia alimentar do lagarto, mas, ao observar a cena, fiquei com pena da humilhação do pobre e acabei fazendo um pré-julgamento. Fiquei com pena do dito cujo. Afinal, quem o estava atacando era a andorinha, que, apesar de singela, estava agressiva e o atacava de maneira implacável.

Eu prejulguei com base na violência excessiva. Parecia ser um ataque sem fundamento.

A partir do momento em que comecei a refletir sobre o porquê de tal atitude, passei a pensar na importância de conhecer o contexto antes de avaliar uma situação.

O ataque parecia desproporcional. Assim, sem entender o contexto, meu julgamento foi leviano.

Quem era a verdadeira vítima?

Qual foi o fato que gerou tamanha ira a ponto de provocar um ataque tão violento?

Nem sempre quem apanha é a verdadeira vítima. Toda ação pode produzir uma reação. O que teria provocado tamanha ira na singela e raivosa andorinha?

Entretanto, quem partiu para a violência foi ela e, diante do senso comum, seu ato violento poderia tirar-lhe toda a razão.

Mas olha eu julgando novamente!

Talvez esse seja justamente o problema: vejo apenas alguns minutos de uma história e já quero encontrar uma vítima, um culpado e até dar a sentença.

Todos nós, seres vivos, temos nossas lutas. Quem olha de fora o ocorrido nem sempre tem informações suficientes para avaliar uma situação.

Portanto, é de bom-tom não julgar e, muito menos, tirar conclusões ou tomar partido do pobre lagarto. De fato, não sei se ele tem razão.

Quais são suas lutas e suas dores?

Ninguém sabe exatamente o que você está vivenciando. Portanto, não permita que os julgamentos externos definam a sua verdade. Quem observa apenas um pedaço da história dificilmente conhece o contexto inteiro.

Não, por favor, não me julgue sem ler o texto e sem entender o contexto. Afinal, é apenas uma reflexão.

Quem, de fato, é o lagarto? Quem, de fato, é a singela andorinha?

Eu?

O lagarto?

A andorinha?

Será a vírgula? Será o ponto?

Quem será a vítima? Quem será o algoz?

Não. É apenas uma reflexão.

Ou pode ser apenas uma questão de interpretação do conflito.

Por: Sonia Maria Alves. 



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