Uma névoa de ilusão

 22/09

Crônica

Uma névoa de ilusão



Uma névoa de ilusão

Abro a porta da varanda. Levantei meio desanimada e, como faço todas as manhãs, fiz minha reverência de gratidão ao rei sol. Agradeço por mais um dia e por fazer parte da criação divina.

Contudo, hoje ele não estava visivelmente presente.

A cidade amanheceu coberta por um grande nevoeiro. Até os edifícios mais altos desapareceram da paisagem, como se nunca tivessem sido construídos.

Mas eu sei que estão lá.

Assim como sei que o sol também está.

O sol é uma fonte inesgotável de luz. Mesmo quando não dá o ar da graça, faça frio ou chuva, permanece fiel, aquecendo e envolvendo o planeta com seus raios. Quando me deixo levar pela poesia, gosto de imaginá-los como bênçãos divinas que, silenciosamente, chegam até mim todos os dias.

Talvez tenha sido o nevoeiro que me levou à reflexão de hoje: quantas vezes nos deixamos enganar pelas aparências?

O feio só existe porque conhecemos o belo. A luz nos permite perceber a sombra, e talvez ambas sejam necessárias para enxergarmos a paisagem por inteiro.

Na vida também é assim.

Quando estamos iludidos, enxergamos apenas uma parte e nos esquecemos dos pequenos detalhes. Nem tudo é somente luz, nem tudo é somente sombra. Ficar triste não significa ser triste. Estar alegre não significa ser alegre.

O nevoeiro diante da minha varanda me lembra disso.

Ele encobre os edifícios, esconde o horizonte e impede que eu veja o sol. No entanto, nada deixou de existir porque meus olhos não conseguem enxergar.

Talvez alguns momentos da nossa vida sejam assim também: uma névoa passageira sobre aquilo que continua lá.

Às vezes, basta mudar o pensamento para que a vibração também mude. Outras vezes, é preciso apenas esperar.

Afinal, basta um pequeno sopro de vento para que o nevoeiro se desfaça e a paisagem volte a se revelar.

Senhor, dai-me olhos de ver e ouvidos de ouvir. Orientai-me para que eu consiga enxergar além das aparências e faça boas escolhas durante a minha existência.

Estar encoberto não significa não existir.

Fica a dica!




Sindrome do Ninho Vazio

 7 de setembro 





A Sindrome do Ninho vazio exige uma metaforfose


Da varanda do 303, observo a lua que está linda, é noite de lua cheia e  teremos o eclipse lunar por volta das 23h12 e 23h43, assim informa, o senhor Google, e por um momento penso no meu filhote mais novo, aquele  que adora tirar fotos da lua, sempre fui mãe coruja, daquelas que só tem olhos para os filhos. 

Hoje, contudo, me transformei numa mãe águia que permite aos filhos voarem e a presença deles está apenas no meu coração. Confesso que aqui um nó se formou na minha garganta ao digitar esta reflexão. 

Ser mãe coruja significa manter debaixo das asas, proteger de tudo e de todos. Contudo, proteger demais fragiliza e os torna dependentes demais e nem sempre estarei aqui para colocá-los debaixo de minhas asas. 

 O que  seria imprudência, pois ao  cuidar demais podemos  perder a mão e de alguma  forma   subjugar, manter preso é o mesmo que  cortar-lhes as asas.

Entretanto,  meu amor é  racional e jamais faria isso com eles. Por isso, deixei-os ir. Ademais,  acredito na educação que dei a eles e no potencial dos meus filhos, de   conseguirem resolver qualquer situação que a vida apresentar-lhes. Eles com certeza irão enfrentar  desafios e também alguns grandes obstáculos, sei disso.

Entretanto, sentir o prazer de se sair bem das situações ou até mesmo de errar e corrigir seus erros é um direito que lhes cabe, pois isso significa viver em plenitude. Acredite, isso não significa abandono e sim, confiança, eu não seria uma boa mãe se os prendessem debaixo de minhas asas, quero observar seus altos voos, se caírem, com certeza, terão forças para levantar, pois, eu sei que Deus estará presente na vida deles. 

Foi assim, observando a lua cheia  que percebi que de coruja passei a ser mãe águia, pois, deixei meus filhotes livres para voar e viver com plena  liberdade. Sei que eles estarão para sempre guardados no meu coração, confio na capacidade dos meus filhos e na proteção divina. 

Mudar de coruja para águia foi necessário uma verdadeira metamorfose, confesso que foi doloroso ver meu ninho vazio. Hoje subo na mais alta montanha da minha fé e agradeço a Deus por me ensinar a deixar voar. Eu sempre estarei aqui, com meu afeto,  para acolher debaixo de minhas asas, quando precisarem.

Mães, acredito que deixar voar é a maior prova de amor materno. 

Por: Sonia. M.A.


 17 de setembro 



A importância do contexto 


Da varanda do 303, observo  correr pelo asfalto quente um grande lagarto sendo perseguido por uma andorinha, que levanta voo alto e retorna com toda velocidade e bica a cabeça do lagarto, repetindo isso por diversas vezes, eu acho interessante o espetáculo, uma vez, que ele não reage contra  e continua a correr buscando uma moita ao lado do meio fio para se proteger, a andorinha corajosa continua a investir sobre ele, atacando a cabeça e as vezes o rabo do Teiú.

Eu nunca pensei que uma andorinha poderia ser tão briguenta, ela não desiste e continua a perseguir o pobre, que com suas pequenas patinhas corre desesperadamente em busca de refúgio, até que ultrapassa, por uma fresta o muro que dá para chácara vizinha, a andorinha por sua vez,  voa  bem alto e pousa em cima da copa de uma grande árvore e fica observando atentamente tentando encontrar o lagarto que já se escondeu no matagal.

As divergências e conflitos existem  em todos os reinos dos  que buscam a sobrevivência, contudo, eu passei a divagar sobre o porquê da  andorinha estar tão irada  com o lagarto?

Algumas suposições  surgem em minha mente:  será que ele comeu seus ovos? Atacou seus filhotes? Eu não conheço muito de biologia e desconheço a cadeia alimentar do lagarto, mas ao observar fiquei com pena da humilhação do pobre, e acabei por fazer um pré-julgamento, fiquei com pena do dito cujo, afinal , quem  está atacando é a andorinha que apesar de ser singela estava muito irada e ataca de maneira implacável. 

Eu prejulguei baseado na violência excessiva,  parecia ser um ataque  sem fundamento. A partir do momento que  comecei a refletir sobre o porquê de tal atitude, passei a pensar na importância de conhecer o contexto, antes de julgar.

O ataque  parecia díspares, assim, sem entender o contexto, meu julgamento foi leviano, quem era a verdadeira vítima? Qual foi o fato que gerou tamanha ira a ponto de gerar uma ataque de  violência. 

Nem sempre quem apanha é a verdadeira vítima, precisamos ficar atentos, pois, toda ação produz uma reação. O que gerou tamanha ira na singela e raivosa andorinha? No entanto,  quem partiu para  violência foi ela, seu ato violento tirou-lhe toda razão, diante do senso comum.

Esse momento me fez recordar de um conflito que presenciei no paraiso das letras, porém optei por não tomar partido por não entender todo contexto. 

Todos nós  seres vivos  têmos as nossas  lutas,  quem olha de fora, não têm o domínio para julgar  uma situação, eu bem sei. Contudo, não me  julgue por tomar partido do pobre lagarto, de fato, não sei se ele  tem razão. 

Não, por favor, não julgue sem ler o texto e entender o contexto, isso é apenas uma pequena reflexão.

Quem de fato é lagarto ou quem é de fato é  singela andorinha? Quem de fato tem a razão, eu, o lagarto, ou a andorinha?  Será a vírgula? Será o ponto? Quem será? Quais são suas lutas e suas dores?

Não, é apenas uma reflexão, ou apenas  uma questão de interpretação. 

Por Sonia Maria Alves.


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